Tenho andado a deambular pelos textos do Miguel Esteves Cardoso,e para além de concluir mais uma vez que a escrita dele é fantástica,estou a gostar bastante das coisas que estou a descobrir e a ler.
Hoje encontrei este texto chamado "O amor português é um fenómeno turbulento", e caramba até nestas coisas a malta é complicada.
"Do carinho e do mimo, toda a gente sabe tudo o que há a saber — e mais um bocado. Do amor, ninguém sabe nada. Ou pensa-se que se sabe, o que é um bocado menos do que nada. O mais que se pode fazer é procurar saber quem se ama, sem querer saber que coisa é o amor que se tem, ou de que sítio vem o amor que se faz.
Do amor é bom falar, pelo menos naqueles intervalos em que não é tão bom amar. Todos os países hão-de ter a sua própria cultura amorosa. A portuguesa é excepcional. Nas culturas mais parecidas com a nossa, é muito maior a diferença que se faz entre o amor e a paixão. Faz-se de conta que o amor é uma coisa — mais tranquila e pura e duradoura — e a paixão é outra — mais doída e complicada e efémera. Em Portugal, porém, não gostamos de dizer que nos «enamoramos», e o «enamoramento» e outras palavras que contenham a palavra «amor» são-nos sempre um pouco estranhas. Quando nós nos perdemos de amores por alguém, dizemos (e nitidamente sentimos) que nos apaixonamos. Aqui, sabe-se lá por que atavismos atlânticos, o amor mete sempre a paixão ao barulho. «Apaixonar-se» é ficar amorosamente rendido a outra pessoa, e tanto o verbo como a carne encontram a sua raiz não tanto no amor como na paixão. O que talvez distinga os portugueses é não distinguirem o amor da paixão. Em Portugal, ama-se sempre apaixonadamente e a maior das paixões, a mais violenta e conturbada, tem sempre o seu bom bocado de delambida meiguice. Os extremos, entre nós, só existem quando se tocam.
O amor português não é um fenómeno ternurento. É grave, como um crime. Os crimes passionais em que somos pródigos são pouco mais do que episódios de amor. Leopardi escreveu uma vez que há duas coisas belas no mundo: o Amor e a Morte. Para os portugueses, essas coisas não são assim tão duas. São só uma. Morrer de amor é mais frequente que amar até à morte. Alguns grandes poetas castelhanos, como Lope de Vega, pasmaram-se com esta confusão em que escolhemos andar. A felicidade jamais é chamada para o assunto. O amor, sempre misturado com a paixão, nunca se vê como um caminho para nada — quanto mais para a felicidade. Na melhor das hipóteses, consiste em ir adiando engraçadamente a desgraça. Todos esperam uma tragédia e ninguém se surpreende muito quando ela acontece.
O amor português está para a felicidade como uma montanha russa para o contentamento: não está. Com o coração na boca é difícil dizer-se seja o que for. Apetece trincá-lo ,e, quando não apetece, é a outra pessoa que enfia o dente. Bem-vinda, como sempre. O amor é a nossa dilecta doença contagiosa. Ciúmes doentios, cenas doentias, alegrias e desilusões, expectativas e saudades... é sempre tudo deliciosamente doentio. A única coisa que não se pode dizer do amor em Portugal é que ele seja só saúde. Não é.
Entre nós, a paixão não é capaz de surgir separada. As enfatuações, as paixonetas e os amoques são problemas que só raramente conseguimos ter. Em cada «fraquinho» que se tenha por alguém, há sempre a força latente de uma paixão e o desejo bem dormido de um grande amor. A atracção exclusivamente física é considerada à parte. Os «fraquinhos» são as predisposições de quem está absolutamente disposto a amar.
A atracção exclusivamente física é normalmente considerada «à parte». Por que é que os homens portugueses dizem das mulheres que acham sexualmente atraentes que são «boas»? Que quererá dizer esta estranha conotação com a bondade? Os restantes povos latinos dizem coisas bastante mais rudes. Os portugueses acham que as mulheres atraentes são «boas» porque, ao contrário daquelas que amam, são insusceptíveis de lhes causar grande maldade. As mulheres por quem nos apaixonamos é que são más. Dão-nos cabo da vida, nós damos cabo da vida delas e, se não fosse uma alegria essa guerra, seria uma paz-de-alma, que é como quem diz, uma miséria.
A razão por que os portugueses querem dizer «amor» e não lhes chega a boca é, porque nada lhes chega jamais. No amor é tecnicamente impossível exagerar. O que é de mais também não farta. É tudoimportantíssimo. Qualquer caso é de vida ou de morte. A mínima comédia é um drama. A faca na liga acaba sempre no alguidar. Se ela se serve primeiro do açúcar, se ele chega com um atraso de dois minutos, é porque, de certeza absoluta, já arranjou outro amante. Se a polícia estiver a tentar arrombar-lhe a porta e ele disser «Agora tenho mesmo de desligar o telefone, meu amorzinho», é porque ele está a tentar «despachá-la». Se ele é preso, é apenas uma maneira que arranjou para fugir dela. Se ela espirra, ele imagina logo que ela passou a madrugada num jardim ventoso, nos braços suados de um turco qualquer. Se ela se veste mal, é porque já não quer saber dele. Se se veste bem, é porque quer impressionar outro. Não há gesto, por muito inóxio, que não seja uma facada. O sangue começa logo a jorrar e, mais uma vez, pela sexta vez desde as três da tarde, assiste-se a mais uma chacina. Adoram.
O verbo português que significa «amar e ser amado» é geralmente desconhecido, precisamente porque não cabe na cabeça ou no coração de português nenhum que a sua enorme paixão possa ser correspondida. Nós amamos e os outros fingem que nos amam, só para nos enganar. Em Portugal, o amor não coexiste jamais com a confiança. Quem ama, desconfia, e quem confia é porque não ama. É por isso que o verbo não se usa, apesar de ser bonito («redamar»).
Da mesma maneira, os portugueses que não estão apaixonados passam o tempo a arejar os tornozelos nas salas de espera do costume (bares, discotecas, anúncios classificados), ansiosos por encontrarem um grande amor, e os que já estão apaixonados amaldiçoam o dia em que o encontraram. Cada um acha o descontentamento de uma maneira diferente. A patognomónica portuguesa — a nossa ciência das paixões — é mais «magda-patológica» do que científica. Em português, «feiticeira» também significa «sedutora» e, quando um amor corre mal, vai-se mais à bruxa do que à vida. Andamos todos às aranhas, e aos rabos das serpentes, e às asas de morcego porque encaramos o amor como um encanto, no bom sentido e no pior.
Que repercussões poderá ter a amatividade portuguesa? Em primeiro lugar, vê-se nas caras das pessoas aquele ar sofredor mal dormido que mais não é que o resultado físico da ausência ou da presença do amor, das noites passadas em claro, quer pela primeira razão quer pela segunda. Quando se vêem namorados, há-de se reparar que um deles está sempre sisudo e perturbado e o outro está sempre a rir-se (porque o primeiro está a acusar o segundo de qualquer grande gravidade, e este disfarça como pode). Ou então estão os dois sisudos e perturbados. Se, por algum estranho acaso, estiverem ambos a rir-se, não é por serem felizes, é porque estão os dois a reagir simultaneamente às acusações de traição um do outro.
Em segundo lugar, os homens e mulheres de Portugal andam sempre afragatados, vestidos de um modo esquisito, calculado para induzir no incauto a súbita apetência de paixão. São as unhas compridas dos homens, as unhas pintadas dos pés das mulheres, as camisas com gola comprida Boeing 707, as botifarras de salto alto de camurça amarelo-torrado. Os estrangeiros não compreendem e nós também não.
Se os portugueses conseguissem amar sem paixão, ou sofrer grandes paixões sem amar, seriam todos mais felizes, mas menos interessantes. Confundir o amor com a paixão é a nossa arte particular — o artesanato típico dos nossos trabalhados corações. Somos infelizes, é certo, mas não os trocaríamos por nada. (Quem é que os comprava, também?)"
Miguel Esteves Cardoso, in 'A Causa das Coisas'
sábado, 29 de janeiro de 2011
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Actividades que aprecio - ruin'arte: O Moinho do Breyner / Fábrica Sereia - Seixal
Vejam e comentem, isto fascina-me:
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
música "au naturel"
Soa bem, não?
Naturally 7, tudo só com voz (e mãos) e um pedal para fazer loops. Já os vi ao vivo e são geniais, vieram acompanhar um cantor que possivelmente o público feminino conhece, o Bublé.
Concerto com Bublé e este 7, é do melhor. O atlântico "veio abaixo", mas com calma....
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
de folga.. Relax mode ON
Bem chega um dia de folga e nada melhor que alinhar o beat para entrar na onda.
cheira a bom tempo e a calor humano...
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
o Segredo.
Já que falei nos Templário, vou desvendar um segredo da ordem de Cristo. Conhecem o Gualdim Pais, "el matador" de mouros, e fundador de vários castelos (Tomar, Almouro, Idanha,Ceras, Monsanto e Pombal), Grão Mestre da ordem?
Valoroso cavaleiro e monge, tinha um segredo para tanta pujança:
A InÊs sabe o segredo, e Vocês, "chegam" lá?
Valoroso cavaleiro e monge, tinha um segredo para tanta pujança:
A InÊs sabe o segredo, e Vocês, "chegam" lá?
que raio de ideia da SIC, hoje dia 24 dá uma reportagem que a barragem de Castelo de Bode faz 60 anos, mas dizem que foi inaugurada a 21 de janeiro. Mais ainda, mostra um condomínio fechado (vale manso) e diz que é empreendimento turístico, quando aquilo tem 2 ou 3 quartos e está fechado, apenas sobram as 30 ou 40 vivendas particulares.
A barragem é linda, o pôr-do-sol é fantástico, e ao fim de dia no verão a àgua é quentinha, podemos fazer canoagem até Constância, "renasceu" Dornes. O que é que eles mostraram? Uns velhotes que estavam a dedicar-se à agricultura e que se queixam da falta de emprego.
Alguém explica que raio de reportagem é esta?
A barragem é linda, o pôr-do-sol é fantástico, e ao fim de dia no verão a àgua é quentinha, podemos fazer canoagem até Constância, "renasceu" Dornes. O que é que eles mostraram? Uns velhotes que estavam a dedicar-se à agricultura e que se queixam da falta de emprego.
Alguém explica que raio de reportagem é esta?
Conhecem a barragem? Já disfrutaram da paisagem, da calma das àguas, e das praias no curso do rio?
sábado, 22 de janeiro de 2011
Votar ou vetar....
Estava eu na minha salinha de leitura (sala das porcelanas, escritório intimista, como queiram) e tal como este rapaz eu também gosto de pensar.
Votar é como obrar, fazemos uma forcinha que o resultado seja o mais estável possível, mas há sempre hipotéses de termos:
Acho que estando a trabalhar, e porque regra geral dado não acreditar no sistema democrático, vou abster-me desta "cagada". Porque votar basicamente é, entre escolher para levar uma vergastada de direita, centro ou esquerda.
Para levar porrada, escolham outro!
Votar é como obrar, fazemos uma forcinha que o resultado seja o mais estável possível, mas há sempre hipotéses de termos:
- Obstrucção - "interrupção parcial ou total da passagem do bolo alimentar pela luz do intestino" (de acordo com o abcdasaude.com.br , e que tem como causas possíveis, tumores e vermes que habitam o tracto intestinal.
- Diarreia - "consiste no aumento do número de evacuações (fezes não necessariamente líquidas) e/ou a presença de fezes amolecidas ou até líquidas nas evacuações" (wikipédia) e que têm como causa vírus, bactérias ou parasitas.
- Cólica - em que é mais a dor e desconforto do que "obra feita".
Pondo isto destes modos, é difícil não pensar nas eleições e no nosso futuro.
Vírus, bactérias e vermes é o que não faltam a concorrer, nem mesmo o "Nando Nobre" consegue resistir à patologia típica de um político, que se caracteriza pela incoerência, falta de memória, delírios, bipolaridade, etc....
E não é menos verdade que um candidato e um presidente tem fases de obstrucção, em que não faz nada e nem se ouve falar dele, tem também fases em que as diarreias, verbais essencialmente, são uma constante.
- Cavaco Silva - Vive a fase da diarreia, em que está com uma "soltura" assinalável, "deitando tudo cá para fora" e tal como os restantes vermes, e suas patologias diz coisas sem nexo, e até delira, discursando como se fosse assumir papel de primeiro-ministro, prometendo governar este pais após uma primeira "incursão" na arte de ser um "bibelot" político.
- Manuel Alegre - É uma cólica constante, apenas soltando "flatos" e fazendo notar a sua presença com barulho e o aroma típico de uma bactéria que evoluiu, deixando o meio literário e passando a coabitar na esfera política. É chato, nada faz e irrita quem está por perto.
- Fernando Nobre - Obstrução, não tanto pelo facto de ser um se que até há bem pouco era alguém por quem nutria respeito e hoje já "sabe nadar" no meio dos políticos, mas porque merece o que o o Chato (do Nuno Lopes) anuncia a todos os que vê: "VAI MAZÉ TRABALHAR!". Volta para a AMI e estás perdoado
- Francisco Lopes e José Coelho - Acho que são doenças mal diagnosticadas. Não merecem sequer qualquer análise. Apenas uma menção honrosa para o slogan "Basta de Pastéis, Coelho a Belém!".
Acho que estando a trabalhar, e porque regra geral dado não acreditar no sistema democrático, vou abster-me desta "cagada". Porque votar basicamente é, entre escolher para levar uma vergastada de direita, centro ou esquerda.
Para levar porrada, escolham outro!
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